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Fortaleza Interior

A Pedra do Dia

Fócion e a Taça

O homem que Atenas condenou se recusou a morrer com ódio

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Taça de bronze com veneno escuro sobre mármore, sob luz dourada direcional
 
 
IA Pedra

O general que chamavam de "o Bom"

 

Atenas condenou o homem que a serviu por quarenta e cinco anos. Fócion bebeu a cicuta e pediu ao filho que não guardasse rancor da cidade. A grandeza dele humilha o tribunal que o matou. Veja de onde vem essa serenidade.

Fócion governou Atenas por quarenta e cinco anos. Formado na Academia de Platão, foi eleito general quarenta e cinco vezes, sempre sem se candidatar, sempre na ausência, porque nunca cortejou a multidão. Austero ao ponto de andar descalço no inverno, incorruptível ao ponto de recusar os cem talentos de Alexandre, ganhou da cidade um apelido raro: chamavam-no "o Bom".

O mundo que ele servia ruiu depressa. Alexandre morreu na Babilônia em 323 a.C., e o império rachou entre os generais. Atenas virou peça no tabuleiro deles: a cidade oscilava entre a oligarquia apoiada por Cassandro e a democracia restaurada por Poliperconte, e cada virada de regime cobrava em sangue quem servira o regime anterior.

Em 318 a.C., a virada alcançou Fócion. Ele passava dos oitenta anos. A facção que tomou a cidade precisava de um culpado pela guarnição macedônia instalada no porto do Pireu, e o velho general, que negociara com os macedônios para poupar Atenas de uma guerra perdida, era o alvo perfeito.

O julgamento foi um motim com nome de tribunal. A assembleia lotou de gente trazida para gritar, e gritaram para que nem o deixassem falar. Quando ele tentou se defender, abafaram a voz. O veredicto foi a cicuta, o veneno que matara Sócrates oitenta e um anos antes, no mesmo solo, por decisão da mesma assembleia.

 

A caminho da prisão, enquanto a procissão de cavaleiros coroados passava perto do cárcere, um homem abriu caminho na multidão e cuspiu no rosto de Fócion. Ele apenas se virou para os magistrados e perguntou, sereno, se ninguém ia conter aquele sujeito.

Sem revidar. Sem se rebaixar.

 

Na cela, um detalhe final de mesquinharia: a cicuta acabou antes que todos os condenados bebessem, e o carrasco se recusou a preparar mais sem receber doze dracmas. Fócion, sem alterar a voz, pediu a um amigo que pagasse: "porque em Atenas", disse, "nem morrer sai de graça."

Antes de beber, chamou o filho para perto. Podia deixar uma maldição, um nome para caçar, uma dívida de sangue. Deixou um pedido só: que o rapaz nunca guardasse mágoa de Atenas pelo que Atenas fizera ao pai.

 

Então tomou a cicuta, sem rancor, e morreu. O último ato de um homem condenado foi proteger o filho do veneno que não estava na taça.

 
 
◆◆◆
 
 
IIO Princípio

A injustiça é deles. O rancor é seu.

 

A injustiça é fato consumado no instante em que acontece. O que vem depois, ódio ou paz, não é mais obra de quem a cometeu. É escolha de quem a sofreu.

 

Fócion entendeu que perdoar Atenas não absolvia Atenas: protegia o filho de carregar um veneno mais lento que a cicuta.

Você vai ser tratado abaixo do que merece. No trabalho: a promoção que você construiu durante três anos entregue a quem chegou ontem, a empresa que você carregou nas costas te descartando numa reunião de quinze minutos. No dinheiro: o sócio que ficou com a parte maior na hora de dividir, o cliente que sumiu devendo.

Nas relações, a conta é igual. A pessoa que você sustentou nos anos difíceis e desapareceu quando a maré virou. O amigo que repetiu na sua ausência o que jurou nunca dizer. A injustiça vai chegar por alguma dessas portas, e muitas vezes você não vai conseguir impedir a entrada.

A pergunta estoica começa depois: o que você faz com ela quando ela já está dentro de você. Transformar injustiça em ódio dobra a pena: primeiro você sofre o que fizeram, depois passa a vida sofrendo o que sente. Quem larga o rancor não está dizendo que estava certo o que fizeram. Está se recusando a ser punido duas vezes pelo mesmo crime.

 
◆◆◆
 
 
IIIA Forja do Dia

A Forja do Dia

 

Manhã: escolha uma injustiça que ainda te aperta. Uma só, daquelas que você ainda revive na cabeça quando o assunto encosta, ensaiando respostas para uma conversa que já acabou. Escreva o nome dela numa linha. Nomear tira a injustiça da névoa e a reduz ao tamanho que ela tem.

Tarde: quando a lembrança voltar, faça a separação de Fócion. Em voz baixa, distinga as duas coisas: "o que me fizeram já está feito; o ódio que ainda sinto sou eu quem mantém aceso." Não force perdão, porque perdão forçado é teatro. Só pare de adicionar lenha e observe o que o fogo faz quando ninguém o alimenta.

Noite: registre em uma linha o que mudou. Não se o ódio sumiu, mas se ele pesou um pouco menos por você ter deixado de alimentá-lo hoje. A muralha não se ergue derrubando Atenas. Ergue-se tirando de Atenas o poder de morar na sua cabeça.

 

Fócion morreu chamado de "o Bom" por uma cidade que o matava. Anos depois, arrependida, Atenas lhe ergueu uma estátua de bronze e enterrou seus ossos às custas do Estado. Ele já não estava lá para ver, e nunca precisou. O título não dependia da gratidão de Atenas. Dependia dele. O seu também.

Uma pedra. Hoje. A muralha cresce uma fileira.

 

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Verdadeiro ou Falso: Segundo o texto, o último pedido de Fócion ao filho, antes de beber a cicuta, foi que ele nunca guardasse mágoa de Atenas pelo que a cidade havia feito ao pai.

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