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Timóleon libertou Siracusa e tinha o trono ao alcance da mão. Devolveu o poder e se retirou. Recusar a coroa exige mais músculo do que conquistá-la. Veja como ele sustentou essa escolha.
Timóleon de Corinto vivia havia quase vinte anos afastado da vida pública quando, em 344 a.C., embaixadores de Siracusa desembarcaram em Corinto implorando socorro. A maior cidade grega da Sicília agonizava: tiranos dentro dos muros, exércitos de Cartago rondando a costa. A assembleia procurava um general para a missão. Da multidão, alguém gritou o nome quase esquecido de Timóleon, e a cidade aprovou.
O afastamento tinha uma cicatriz no centro. Décadas antes, seu irmão Timófanes usara uma guarnição para se fazer tirano de Corinto. Timóleon implorou que recuasse. Diante da recusa, consentiu que os conjurados o matassem, e carregou pelo resto da vida o luto e a reprovação da própria mãe. Poucos homens na Grécia haviam odiado a tirania a um custo tão pessoal.
Ele partiu com poucos navios e um punhado de mercenários, escapou da frota cartaginesa que vigiava o estreito e desembarcou numa ilha em ruínas. Em Siracusa, três forças se mordiam: Dionísio II entrincheirado na cidadela de Ortígia, o tirano Hicetas dominando bairros da cidade, e Cartago à espreita, pronta para engolir o que sobrasse.
Em poucos anos, o quadro virou. Dionísio II entregou Ortígia e foi mandado para Corinto, onde terminou os dias como homem comum. Timóleon fez então um gesto que valia por um manifesto: arrasou a fortaleza de onde os tiranos haviam governado por gerações e mandou erguer tribunais de justiça sobre as ruínas.
Faltava Cartago. Junto ao rio Crimiso, com um exército muito menor, ele atacou a coluna cartaginesa no meio da travessia do rio, sob uma tempestade que açoitava o rosto do inimigo. A vitória quebrou o domínio cartaginês sobre a parte grega da ilha. Depois vieram dezenas de milhares de colonos para repovoar Siracusa, e as leis voltaram ao lugar dos caprichos.
Um homem que faz isso costuma cobrar a conta. Timóleon tinha o exército, a gratidão das cidades, as mãos sobre Siracusa inteira. O caminho para o governo absoluto estava aberto, e havia quem o empurrasse para lá: era o salvador, o vencedor natural, o nome que ninguém contestaria como senhor da ilha.
Ele recusou. Devolveu o poder às cidades, ajudou a refundar governos com leis e não com donos, e retirou-se para uma vida privada em Siracusa, como um cidadão entre outros. Velho e cego, era levado de carroça à assembleia quando a cidade precisava de conselho. Plutarco resume o contraste: outros conquistaram para mandar. Timóleon conquistou para entregar.
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